Há anos você só fala comigo em sonhos e não me importo, pois que já quase não ouço. Mas quando éramos jovens, nossa casa era cheia de sons felizes. Você treinava para si, eu lia pra você, o CD tocava para nós. Um tapa inesperado na bunda e você dava um gritinho de braveza fingida, um beijo surrupiado na nuca e eu soltava um gemido de verdade. Vez ou outra nos aventurávamos na cozinha, e aos estalos do óleo fervente juntava-se nossa torcida ("vaaai, mandiopã!"). Não dê risada.
O móbile tilintava e a gente corria até a varanda pra ver as nuvens pretas, contando os intervalos descrescentes entre raio e trovão para calcular a distância da tempestade – sinal de um amorzinho iminente e caprichado.
Minhas lembranças são cheias de sons de água. Você abastecendo o regador e subindo a escada de metal para molhar as plantas, o excesso de água escorrendo pelas floreiras e desmaiando no ralo com um glubglub resignado. Tinha a água no fogo pra passar café, tinha o gelo trincando no chá quente, e não tinha água quente quando o banho anterior tinha se prolongado.
Você, por volta dos 30, já tinha rugas horizontais na testa toda. E frise esse horizontais, porque não eram marcas de mau-humor. Antes, eram a prova da sua irredutível admiração do mundo, surpresa com as pessoas e deleite com a vida. E quando você levantava as sobrancelhas diante de um novo espanto, tinha um ar absolutamente encantador.
Com o passar dos anos também surgiram rugas verticais, mas o sentido era o mesmo: no lábio superior, todas aquelas músicas assoviadas deixaram comissuras, como se dizia na época, e da base do seu narizinho lindo até seu queixo exibido, os sulcos de muitos e muitos sorrisos.
Nada disso prejudicou sua graça, é claro. Você sempre foi suave ao toque, exceto quando os arrepios substituíam o viço habitual da pele, mas isso também encerrava certa delicadeza. E se por um lado seus pés já não eram tão macios, de outro minhas mãos tampouco, donde as massagens continuaram um enorme prazer. O fogo da juventude deu lugar à ternura da meia-idade sem que nada entre nós se tornasse morno. Já ninguém tem essa habilidade hoje em dia, são uns vulcões extintos muito antes de completarem, como nós, bodas de cedro. Sim, cedro.
Cedro que cheira bem como açúcar queimado, como jasmim, como livros antigos e discos queridos, como colônia de bebê, gengibre e baunilha, suor, nossa cama, sangue, toalhas limpas, seu cabelo. Cheiros que eu não sou mais capaz de sentir, ainda bem, três vivas para a pituitária senil que manteve intactas minhas lembranças olfativas.
Mas chega, que enjoei de todo esse melodrama sem sal. Você está mais em mim hoje do que nunca, e finalmente. Sabe o que penso e como me sinto, inclusive por não conseguir sequer segurar com firmeza uma caneta!
Pensando bem, melhor tirar essa última parte, enfermeira.

Escrito por Karla Lima às 05h18
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