Desde que você saiu de casa o box está sempre entupido. Outro dia tirei do ralo metros e metros de cabelo. Nunca soube que você recolhia meus fios. Até hoje eu procuro sua escova, ponho pasta na minha e fico como besta, com o tubo na mão, sem ter onde aplicar o segundo apertão que já vai escorrendo. Ainda tem cigarro do seu na gaveta, um maço fechado e outro começado, com um isqueiro dentro. Aliás, o único da casa, que eu devolvo ao lugar toda vez que uso, num ritual tardio de obediência a uma regra sua. Ontem encontrei um rascunho com anotações de jogo – você ganhou, mas o azar no amor foi meu. Ha ha ha, isso não tem graça nenhuma. Falo com você o tempo inteiro. Você me deixou há quê? Uns poucos dias, algumas semanas? Pois eu ainda quero combinar o próximo fim de semana ou contar alguma coisa. É um cacoete, uma ilusão, é como ter dor no membro amputado, como relacionar-se com um amiguinho imaginário. É ridículo. Penso em você fumando o primeiro cigarro do dia, tomando o café que fiz, pra variar, forte demais. Lembro de você no elevador (mais subindo que descendo, acho que subimos com mais freqüência, eu sempre precisando loucamente mijar). Penso em você quando leio e faço cocô. Seria mais dramático se eu tivesse perdido o apetite, mas a verdade é que tenho comido horrores, um psicólogo de quinta diria que é para preencher o vazio interior que você causou. A despensa está cheia de guloseimas, o leite intocado, seus chás vou jogar fora, não preciso de coisas externas me lembrando da sua passagem por aqui, vou voltar a exercer minha solteirice gastronômica. Não sei onde você está nem que tempo faz aí, aqui esfriou repentinamente, procurei o edredon verde e não achei por nada. Você o levou? Pouco provável, embora me aqueça a esperança de você ter querido levar algo que me pertencia. Mas não te imagino fazendo as malas, embalando roupas e sapatos e enfiando à força num saco um edredon king size verde alface. Reparei que não chega correspondência pra você aqui, nem digo contas, mas sequer uma mala direta? Também nunca te ligam, ou você avisou todo mundo que ia embora ou nunca deu o número daqui pra ninguém, me pergunto se alguma vez você chegou a considerar de fato essa casa como sua. O espaço que você deixou no armário que partilhávamos até é pequeno, nunca reparei que você tivesse tão pouca roupa. O toque que era exclusivamente para suas chamadas nunca mais soou no meu celular – e ainda o atendo quando toca o aparelho de uma outra pessoa que usa o mesmo ringtone. Tem umas ausências óbvias, como a vaga sobrando na garagem, mas as presenças óbvias doem mais. Todas as minhas senhas ainda nos dizem respeito, o início do namoro no cartão de débito, suas iniciais no email do trabalho. Sigo encontrando restos seus, até hoje tem umas roupas espalhadas por aí e bitucas suas em alguns cinzeiros. Seus jornais se acumulam, nunca lembro de jogar fora e, como você sabe, a Maria só se desfaz daquilo que já está sobre a lixeira. Tem moedas e notas pequenas em todo canto. Seus livros ficaram, dá uma certa esperança. Continuo passando frio, onde está a porra do edredon, a casa não é tão grande, como pode sumir aqui dentro um troço daquele tamanho? Faz tempo que não perco o chaveiro – aquele cujo pingente é igual ao seu e que, como todo o resto, mantenho intacto num misto de masoquismo e medo de que você volte e fuja de vez por eu ter apagado seus sinais. Sinto falta do capuccino que você preparava pra mim toda manhã, e da massagem nos pés que você fazia tantas noites. Sinto falta do chá que tomávamos antes de deitar. Minhas masturbações são vingativas, infelizes e infrutíferas, me esforço para pensar em outra pessoa e sem perceber volto-me sempre e de novo para você. Vejo a pia em pandarecos e me lembro da maneira como você organizava a louça suja para manter a estética do pós-refeição: hoje é tudo um grande pós-guerra. Já não há bilhetes à minha espera quando chego em casa, e ao acordar ainda faço silêncio pra não incomodar seu sono. Nunca mais vai fazer calor nessa terra, continuo dormindo só com a manta e procurando o edredon verde todas as noites, com crescente irritação. Não sei em que dia do mês dar remédio ao cachorro, e não sei a dosagem. Não sei onde ficam as notas nem garantias de nada do que temos – na verdade não sei onde fica quase nada, queima uma lâmpada e não acho as sobressalentes, acaba a luz e não encontro nem velas nem lanterna. Você arrumava tudo, acabei me desligando dessas coisas e minha própria casa agora tem muito de ambiente desconhecido – o que de certa forma ela de fato é, sem você. Ontem me ligaram da lavanderia. Disseram que, se eu não for buscar até amanhã, vão doar aos pobres o meu edredon verde.

Escrito por Karla Lima às 12h46
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